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QUEIXAS CONTRA IMPLANTES CRESCEM EM SÃO PAULO

Proporção de denúncias encaminhadas ao conselho regional de dentistas tripicou nos últimos 5 anos
Utilização de materiais "piratas" e falta de perícia dos profissionais estão entre as principais causas dos problemas

Fonte: Folha de São Paulo · Cláudia Collucci · 10 de Julho de 2010

Em cinco anos a proporção de denúncias de implantes malfeitos tripicou no CROSP (Conselho Regional de Odontologia Paulista). Em 2004, uma de cada dez reclamações era referente a implantes. Ano passado, as queixas na área representaram 30% do total de 305 recebidas pelo conselho. Hoje, 1 milhão de implantes são fixados por ano na boca dos brasileiros - 60% a mais do que se fazia a quatro anos, segundo a Associação Brasileira da Indústria Médico-Odontológica.

O surgimento de clínicas populares, a oferta de mão de obra barata e despreparada em razão do excesso de faculdades de odontologia e a proliferação de implantes com peças "piratas" são apontadas como causas do aumento de reclamações. O resultado dessa salada russa pode ir muito além da perda do implante, que custa entre R$ 1.000 e R$ 3.000. A imperícia pode levar a lesões de nervos e infecções.

A auxiliar de enfermagem Maria Aparecida de Carvalho, 40, que o diga. Há um ano, ela raspou a poupança para colocar cinco implantes, que custaram R$ 8.000 em uma clínica popular. Mas até hoje ela não conseguiu ter os tão sonhados dentes. Maria sofreu uma lesão no nervo dentário na mandíbula superior, que levou a uma paralisia na região. "Bebia alguma coisa e babava igual a um bebê". Ela denunciou o dentista ao conselho.

Segundo o cirurgião-dentista Luiz Antonio Cosmo, especialista em Implantologia e da Academia Americana de Osseointegração, uma tomografia da região poderia ter evitado o problema. "Tem muita clínica instalando implante a todo custo. Colocam profissionais com pouca experiência, que usa peças inadequadas", diz ele.

Outro problema comum, segundo Cosmo, é a instalação de implantes na chamada ameia interdental (espaço entre um dente e outro), que compromete o alinhamento dos dentes restantes e, em geral, leva à perda do implante recém-colocado. Implantes fixados no osso zigomático (maça do rosto), sem indicação precisa, também podem gerar infecção. "Falta experiência e estudo. O profissional que faz implantes precisa conhecer prótese, cirurgia e periodontia. Um bom planejamento e equipamentos adequados, certificados, são cruciais".

"PIRATARIA"

De acordo com o cirurgião-dentista Rodolfo Candia Alba júnior, diretor da Associação Brasileira da Indústria Médico-Odontológica, outro problema que preocupa são as peças piratas, produtos de contrabando ou fabricados sem registro na Anvisa.

"Muitas empresas viram na área um negócio promissor e estão fabricando peças sem regulamentação. São mais baratas, adquiridas por profissionais sem treinamento, que desconhecem os problemas que podem causar". Alba Júnior explica que o implante "legal" tem um registro que sai de fábrica e é a garantia de que se trata de um produto de qualidade.

Segundo ele, em geral, não há problemas de qualidade com pino de titânio: desde que esteja esterilizado, se integra facilmente ao osso. O risco está nas conexões, componentes que serão encaixados ao implante e emergico fora da gengiva para a colocação da prótese. "Se as conexões não tiverem qualidade, elas serão incapazes de sustentar o alto impacto gerado pela força de mastigação, por exemplo. Então, no prazo, de seis meses a um ano, os parafusos se afrouxam com facilidade, e a peça solta o dente".


MÁ FORMAÇÃO PREOCUPA CONSELHO REGIONAL

Fonte: Folha de São Paulo · 10 de Junho de 2010

A realização de um exame de proficiência para a área odontológica, como acontece hoje na advocacia, é defendida pelo Crosp (Conselho de Odontologia Paulista). A iniciativa, que precisa ser aprovada pelo Ministério da Educação, visa filtrar o ingresso de profissionais mal preparados no mercado.

O conselho também reivindica ao MEC que os cursos de especialização na área passem pelo seu crivo. "Entendemos que estes cursos devam ser avaliados periodicamente pelo conselho", diz Marco Antonio Manfredini, conselheiro do Crosp. Segundo ele, houve uma abertura indiscriminada de faculdades de odontologia. Em 1996, existiam 90 cursos, formando 8.500 dentistas por ano. Hoje, são 188 cursos, que colocam no mercado, 15 mil profissionais.

Há 230 mil profissionais no país, sendo 75 mil no Estado. "Hoje, 20% dos dentistas do mundo, estão no Brasil". Para Manfredini, as denúncias de implantes malfeitos são a ponta do iceberg, já que poucas pessoas utilizam os conselhos de odontologia como canais de denúncias.

Na sua opinião, a má formação é uma das principais razões para o aumento de problemas na área. "Muitas pessoas sem indicação para receber um implante estão sendo tratadas". O conselho não dispõe de dados sobre quantos profissionais já foram punidos por erros nessa área. A sugestão é que as pessoas verifiquem no conselho se o dentista tem registro e se a clínica tem aval da vigilância sanitária para funcionar.